Suicídio

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Palestra realizada no Centro Espírita Recanto de Maria , no dia 20 de julho 2017, com o tema “Suicídio”.
Degravação somente possível graças à ajuda dos voluntários Sabrina e Samuel Teixeira

 

Amigos, vamos falar um pouco acerca de uma crise que o mundo atravessa entre tantas outras, mas que está preocupando demais a todos, principalmente à Organização Mundial de Saúde, que declarou há semanas atrás que, a cada 40 segundos no mundo, alguém tira a própria vida.

E, ultimamente, nunca se discutiu tanto a questão do suicídio, mas nunca se ignorou tanto, socialmente, o que leva uma pessoa a desertar da existência.

Em 1927, através da mediunidade de Yvonne Pereira, Camilo Castelo Branco, escritor português que se matou com um tiro no ouvido pelo suplício de estar cego e sentir-se humilhado por isso, psicografa essa obra maravilhosa que é Memórias de um suicida.

Entretanto, ali havia informações que, para a época, seriam extremamente complicadas de virem a público, por exemplo, televisões que eram utilizadas no Mundo Espiritual, no Hospital Maria de Nazaré, para confortar as almas suicidas em tratamento.

Obviamente, na década de 1920 isso seria complicado, e, por 30 anos, Yvonne guarda os originais do livro, até que, em 1957, ela tem autorização da Espiritualidade, e a Federação Espírita Brasileira publica a primeira edição de Memórias de um suicida.

Nesse mês de julho, o mundo lembrou-se de um escritor extraordinário, que deixou obras maravilhosas, que foi um correspondente de guerra, o homem que escreveu um dos clássicos da literatura moderna, chamado O velhoe o mar.

Ernest Hemingway escreve O velho e o mar relatando, no fundo, a sua própria história. Aquele homem que tinha que lutar contra um peixe enorme, que era o último desafio da sua vida. O livro é um bestseller absoluto. Ele ganha o prêmio Nobel e entra em profunda depressão. Porque então considerou que nunca mais ele repetiria a genialidade do O velho e o mar.

E isso realmente aconteceu.

Ele começou a ter dificuldades de saúde e partiu para o alcoolismo. Tornou-se um alcoólatra que ninguém conseguiu ajudar. Sua quarta esposa era alcoólatra como ele, e eles tinham muitos amigos em Hollywood.
Os amigos, certa feita, fizeram uma reunião para convencer a esposa a internar Hemingway em mais uma clínica de desintoxicação. Ela então pegou uma garrafa de uísque, virou-se para os amigos e disse:

– Eu agradeço demais a preocupação de vocês, mas eu e Ernest vamos beber essa garrafa de whisky juntos, em agradecimento a toda essa preocupação que vocês têm.

Eles a alertaram. Ele era um caçador emérito. E alertaram a ela de que havia muitas armas em casa. Ele tinha coleção de espingardas.

E disseram a ela:

– Uma hora ele vai fazer uma bobagem, porque ele está tão depressivo, que não consegue ver uma perspectiva de futuro.

Realmente: aparentando que depois da última internação teria melhorado, ele fez todos pensarem que se recuperaria. E, numa manhã, ela acorda com um barulho de um tiro de espingarda. Ele deu fim à própria vida. Nesse mês de julho completaram-se 56 anos do seu suicídio.
Mas a história de Hemingway é muito significativa, porque, no fundo, quem foge da vida acredita que as dificuldades, que os impedimentos, que as limitações, que os problemas de saúde são muito maiores do que ele mesmo.

E, é claro: Camilo Castelo Branco, nesse livro maravilhoso, nos fala exatamente dessa situação do suicida fora da matéria. Ele, surpreso, volta à Terra, para acompanhar um amigo suicida, porque eles se tornam amigos. Era um grupo de cinco, cuja história é relatada no livro. Eles vêm para ajudar um deles, que queria se encontrar com a família, e, chocado, Camilo olha uma folhinha que está pregada na parede da cozinha da casa onde eles entraram e lá ele percebe que 14 anos se haviam passado desde o seu gesto do suicídio.

Ele narra em detalhes o sofrimento enorme da alma que foge do corpo, mas permanece vivendo.

André Luiz, quando, no final da década de 1940, na verdade ainda em 43, começa a psicografar Nosso lar, através de Chico Xavier, fala também do seu conflito.

Ele, um médico sanitarista famoso, é considerado, quando morre, suicida, pelos vícios que possuía, pelas dificuldades do corpo que não ele não tinha sabido respeitar. E, no final de Nosso lar, André Luiz nos recorda:

– Enquanto estais na Terra, providenciai um real entendimento do que é um dia sair da matéria, através da morte física.

Ele conta, no início do segundo livro, Os mensageiros, que, embora tão conhecido, famoso, médico, ele nunca tinha imaginado que precisava adestrar os órgãos do Espírito, e não só os do corpo, para continuar vivendo além da vida física.

Camilo Castelo Branco conta que todo suicida, do outro lado da vida, tem um cacoete, porque, na hora final, o nível de sobrevivência do ser humano é altíssimo. Ainda que conscientemente se parta para o suicídio,o último gesto será sempre de tentar impedir aquilo.

Então os que tinham se enforcado, por exemplo, passavam o tempo todo com a mão sobre o pescoço. Ele, que havia dado um tiro no ouvido, passava o tempo todo com a mão no ouvido, como que para amparar um sangue que, na verdade, não existia mais, mas existia na sua consciência.

E, para assistir as palestras do hospital Maria de Nazaré, onde todos foram socorridos, eles combinaram: iam sentar em cima das próprias mãos. Então eles assistiam as palestras, os mentores, mas todos se sentavam nas próprias mãos.

Quando um deles ameaçava tirar a mão da perna, o outro chamava a atenção, e ele voltava à condição inicial. Um vigiava o outro, ao perceberem que era muito mais forte do que eles, essa vontade de ainda tentar impedir uma coisa que, na verdade, eles haviam feito, que era fugir da própria existência.

Há mais de 20 anos o líder da banda Nirvana, Kurt Cobain, suicidou-se de forma semelhante a Ernest Hemingway. E dois meses antes ele gravou um clip, uma música linda, tristonha, que ficou famosa de imediato. Mas se você for olhar o clip, hoje, você percebe que ali ele deu todos os sinais do que ia fazer.

Ele está com um violão no centro de um pequeno palco e há velas e flores acesas em torno dele.

Às vezes as pessoas não conseguem pedir ajuda, ou nós não temos o olhar de enxergar o outro o quanto ele precisa de ajuda. Já conversei com muitos familiares de suicidas.

E a coisa que eu mais escuto é:

– Como é que ele estava passando por isso e eu não percebi?

E quando é um pai e uma mãe que dizem isso, é doloroso demais. Já aconteceu de fazer palestras sobre o suicídio, e depois da palestra muitos jovens virem com o celular mostrar foto de amigos, de familiares, todos na faixa dos vinte e poucos anos até os trinta e pouco, que haviam se suicidado.

Geralmente a pessoa não dá sinais claros de que ela pensa em tirar a própria vida, mas há muitas pessoas que, conscientes, ainda que num processo de influência espiritual muito grave, buscam ajuda. Não são a maioria. A maioria secretamente começa a acalentar a idéia de fugir da vida. E uma coisa que escuto muito também:

– Ele era o melhor de todos nós. Ele era alegre. Quando nós tínhamos problema, era a ele que nós recorríamos. Nunca imaginei que ele pudesse fazer isso.

Nunca imaginamos, mas a pessoa às vezes nos dá sinais de tristeza, de desalento, de desânimo, de não acreditar em si mesma, e, é claro, não podemos nos iludir, imaginando que, uma vez suicidas, nós seremos recebidos no Mundo Espiritual com satisfação. Jesus sabia tanto disso que nos disse:

– A cada um, segundo suas obras.

E os Espíritos amigos e sofredores, ao longo do tempo, se manifestaram, para contar as suas próprias experiências e para nos dizer que a tarefa de ouro é manter a nossa esperança, mesmo com todas as lutas e dificuldades, enquanto estamos na Terra.

Chico Xavier, certa vez, recebeu um casal, cujo filho de 11 anos já tinha perdido, por uma doença degenerativa, as duas pernas, e estavam desesperados, porque os médicos, para manter a vida do menino, disseram a eles:

– Nós vamos ter de tirar também os braços dele. Ele será apenas um tronco em cima da cama…

Os pais ficaram desesperados e foram até Chico Xavier. Passam os três no próprio Chico, e Emmanuel disse:

– Diga aos pais que autorizem que os braços também sejam retirados. O menino vai viver só mais alguns meses, mas isso é necessário.

O casal morava com o menino numa fazenda. De vez em quando se ausentavam, e Emmanuel contou que o menino, só com os braços, saía do quarto e ia atravessando o quintal, apoiado nos braços, para chegar ao riacho que corria no fundo, para jogar-se. E Emmanuel disse:

– Ele se suicidou nas últimas 10 encarnações. Nessa ele não pode fazer isso de novo.

E assim foi feito. Os pais acreditaram na orientação. Os médicos retiraram os braços, ele viveu alguns meses e morreu na sua cama, segundo Emmanuel, pela primeira vez em mais de mil anos sem sair da vida através do suicídio. Por isso o que às vezes nos parece tragédia, na verdade, muitas vezes, é lição, é apoio.

E quem já se matou em alguma vida, provavelmente muitos de nós já fizemos isso mais de uma vez, tem, às vezes, na reencarnação, uma tendência.

E, na adolescência, que é sempre uma fase difícil, por mais equilibrada que a alma seja, quando, aos 16, 17 anos, inconscientemente nos lembramos de vidas passadas, as coisas se complicam. Nós começamos a achar que não somos aceitos e amados como desejamos.

Começamos a ficar introspectivos.

Na minha geração, você escutava Maria Bethânia, quando você estava na fossa, como se dizia. Mas, muitas vezes, hoje em dia é na própria escola que o menino sofre bullying e não tem coragem de contar. Se sente ameaçado, se sente inferiorizado.

Ainda na semana retrasada, a FEDF (Federação Espírita do Distrito Federal) fez, na Legião da Boa Vontade, um encontro de final de semana sobre Prevenção ao Suicídio.

E um dos que estavam lá, um pesquisador, um professor de Pernambuco, espírita, contava, impressionado, que ele tem um trabalho, junto às casas espíritas, junto às escolas e, em Pernambuco, o número de adolescentes que se automutilam é tão impressionante que ninguém acreditaria.

Aí as pessoas dizem: “Ah! não se pode divulgar o suicídio, para não incentivar as pessoas a isso”. É verdade. Mas então nós temos que achar outra maneira de discutir isso. Porque, em Brasília, o número é enorme.

Eu tenho amigos que trabalham no IML e dizem que a família ainda vai pra porta do IML exigir que o médico não coloque no atestado de óbito a real causa da morte, que foi suicídio.

Há pouco tempo, após uma palestra na Comunhão, havia uma médica, era a última pessoa da fila, para conversar. E ela disse:

– Eu vim aqui, Mayse, pra você falar mais sobre suicídio, porque hoje eu estou saindo do meu plantão. Eu comecei o dia com um menino de 15 anos, que se matou, e terminei o dia com um senhor de 80, que também se matou.

Não tem idade, não tem classe social, não tem diferença de sexo. As pessoas simplesmente acham que suicídio é uma opção. E não só no Brasil, no mundo inteiro.

A cada 40 segundos, uma pessoa se mata no mundo. E como é que nós, espíritas, enamorados dessa Doutrina magnífica, não estamos estudando um pouco mais sobre isso? Discutindo um pouco mais sobre isso, para combater isso?

Mas, para combater, temos de começar com educação dentro de casa, nas escola.

Esse moço de Pernambuco, esse professor, dizia:

– Quem dera que houvesse um psicólogo em cada colégio, porque os garotos, as meninas, estão precisando demais de uma orientação emocional que, muitas vezes, a família não dá.

Porque tudo ficou tão rápido e tudo ficou tão diverso, que, às vezes, pai e mãe não têm tempo ou coragem para olhar no olho do filho e saber o que se passa com ele. Para conhecer os amigos, as influências que, porventura, aquele jovem ou aquela jovem, às vezes quase meninos, estejam atravessando.

Recentemente um psiquiatra americano, consideradíssimo, veio fazer um evento no Rio de Janeiro. E ele contava, numa entrevista ao jornal ‘O Globo’, que ficou impressionado com a quantidade de crianças de três, quatro e cinco anos que são levadas aos psiquiatras nos Estados Unidos.

Ele encontrou essa situação no Brasil também, porque os pais querem que as crianças não deem trabalho… Querem que as crianças fiquem quietas. Querem que as crianças sejam obedientes, mas sem dar exemplo, sem olharem o coração do filho, ou do neto.

E eu me recordei: minha filha tem 33 anos. Quando ela tinha três, o dono da escola onde ela estudava aqui em Brasília me contou uma história. Ele disse:

– Olha, Mayse, eu acho que eu vou vender a escola…
Eu falei:
– Por quê?
– Eu estou desanimado, porque, imagine você, um coleguinha da sua filha Mariana, de três anos, subiu em cima da mesa, deu um tapa na professora e convocou as outras crianças a fazerem o mesmo.

Três aninhos, há 30 anos atrás!!!
– E eu chamei o pai. Chamei o pai pra conversar. Eu relatei tudo que estava se passando. O menino não parava de falar, porque, obviamente, não queria que o pai prestasse atenção ao que eu estava dizendo. Até que, no meio da conversa, o pai virou pro menino e disse: “Meu filho, fica quietinho. Assim que nós sairmosdaqui, eu te compro um brinquedo…

Naquela época, era o brinquedo mais caro que existia!!! E o menino ia ser presenteado com um brinquedo, porque tinha dado um tapa na professora…

Portanto, já não é de hoje que, muitas vezes, os pais estão equivocados: porque a alma que vem como sua filha, seu filho, é alma que vem do espaço para progredir em seus braços, diz Santo Agostino no Evangelho segundoo espiritismo.

E um dia nos perguntarão, com certeza, que diretrizes nós demos àqueles de quem fomos pais, avós, ou tutores, ou educadores, porque seremos sempre educadores.

Por isso, não adianta lamentar, por exemplo, que existe na Internet um processo chamado ‘Baleia Azul’. Se essas pessoas acham adolescentes e até crianças, à frente dum computador, dispostas a passar por aqueles processos, aqueles passos, para chegar ao suicídio no final, tem alguma coisa muito errada, e não é só com a ‘Baleia Azul’… É com a nossa responsabilidade, é com a nossa falta de coragem de, às vezes, procurar o profissional amigo, que possa nos ajudar na educação ou reeducação dessas almas ligadas a nós, mas que principalmente nos ensine a detectar essas tristezas incalculáveis que essas almas trazem, muitas vezes de outras vidas.

Divaldo Franco, orador espírita, fala sobre as crianças-luz que começam a chegar ao mundo, para tornar a Terra, futuramente, melhor.

E eu costumo lembrar que ainda não tive o privilégio de encontra-las, porque as crianças que eu encontro são capirotos: mistura de capeta com garoto… E, o pior: as mães dizem para mim:

– Mayse, você tem de conhecer meu filho!!! Ele já passou pela quarta escola e ninguém dá conta dele, de tão inteligente que ele é!!!

E aí, quando você trava um minuto de conversa com a criança, você percebe que a coisa é séria. Que pais e mães estão considerando que falta de educação é evolução espiritual… Que falta de respeito é superioridade emocional, e não é.

Então, ao contrário do que muita gente pensa, na Doutrina Espírita, não é uma plêiade de Espíritos iluminados que está vindo só à Terra, não… Também um número imenso de almas que precisam se recompor, serem reeducadas, evangelizadas e direcionadas está chegando.

E, obviamente, se estamos, nós, na idade adulta e somos responsáveis por alguns deles, nos caberá essa enorme responsabilidade. Pensemos sobre isso.

Às vezes nós evitamos que nossos filhos passem por determinadas lutas ou sonhos que não se realizem de imediato, achando que os estamos protegendo. Mas frustrações também ensinam. Não voltamos à Terra para total felicidade. Somos o passado em forma de presente.

E não adianta também dizer que os tempos estão difíceis, porque eles sempre foram e continuarão sendo. Mas, se nos dispusemos a mergulhar na carne mais uma vez, é porque prometemos muito. Por isso os Espíritos dizem que essa atual encarnação é decisiva, porque não há mais como titubear. Eles dizem que atualmente os seres que estão na Terra estão passando por lutas afetivas, materiais, espirituais, porque quase todos nós trouxemos para bem perto do nosso coração seres que nós evitávamos há 800, há 1000 anos. Quando encontrávamos essas pessoas fora da matéria: Ah, Fulano, agora não tô preparada pra te encontrar! Vamos deixar pra uma outra?…

Dessa vez não deu jeito. Nós sabíamos que o Terceiro Milênio ia começar e precisávamos, enfim, reencontrar pessoas a quem fizemos mal e que nos fizeram mal também.

Família, pessoas ligadas a nós pelo afeto ou pelo desamor são sempre as pessoas necessárias para o nosso coração. Jesus sabia bem disso, por isso nos convocou para o amor incondicional, o amor que tudo sofreria, mas que, principalmente, saberia triunfar.

Quando Getúlio Vargas atravessava a situação dificílima do seu governo, humilhado, abatido, desejoso obviamente de permanecer no poder, mas percebendo que era inviável, sua filha única, única mulher, Alzira, certa noite, teve intuição de que ele talvez pensasse em matar-se. E ela disse a ele:

– Meu pai, me prometa que seja o que for que aconteça, o senhor não vai tirar a própria vida.

E de tal forma tão veemente ela foi que Getúlio disse:

– Não se preocupe, minha filha, que bobagem! Isso não me passa pela cabeça…

Mas, quando ela escutou e correu para o quarto, já sabia… E Alzira Vargas do Amaral Peixoto contaria, na sua biografia, mais tarde, que, ao entrar no quarto, desesperada, e lançar-se sobre o pai, ele já não conseguia falar, e a primeira coisa que ela disse, desesperada, foi:

– Pai, você me prometeu! Você me prometeu que não faria isso!

Ele sofreu no Mundo Espiritual e, anos depois, socorrido por Eça de Queiroz, o grande escritor português, que era uma alma ligada a ele de outras vidas, os dois, contam os Espíritos, passeavam pelas áleas do hospital, e Getúlio dizia:

– Mas… de que foi que eu morri? Eu fiquei doente? Eu não me lembro de ter ficado doente…

O tiro no coração foi de tal maneira terrível que a sua consciência hebetou-se. E ele lançou para o inconsciente aquela lembrança.

Ele foi casado a vida inteira com dona Darcy Vargas, uma mulher que fazia muita caridade, que criou o ‘Pequeno jornaleiro’, para tirar crianças da rua, dando-lhes um emprego, mas, ele era um homem que não era fiel a ela… Teve namoradas, artistas, e por aí vai. Mas, no Mundo Espiritual, ela nunca se esqueceu dele. E contam os Espíritos que o visitava: ele, internado nesse hospital, depois de desencarnado. Desesperado de remorso, ele dizia para ela:

– Darcy, eu fui um péssimo marido…

E ela dizia:

– Você foi um marido incomparável…

… Veja a evolução dessa mulher!…

– Eu fui um péssimo pai, Darcy!!!

– Não. Você foi um pai generoso. Você deixou exemplos para os nossos filhos…

O exemplo do suicídio também. Um de seus filhos – Maneco Vargas – matou-se.

E, semana passada, o seu neto, filho de Maneco Vargas – Getúlio Vargas Neto – suicidou-se no Rio de Janeiro, aos 61 anos, com um tiro na cabeça.

Na verdade, quando nós deixamos uma mensagem aos corações que vêm depois de nós, precisamos saber que é uma mensagem de bênção e de luz, mesmo que nos caibam a renúncia, o sacrifício, o engolir determinadas realizações que não conseguimos.

Chico Xavier voltava pra casa de madrugada e vê passar na rua escura uma cachorra desencarnada. Essa cachorra estava tão iluminada, que ela atravessava a rua, e a rua ficava iluminada. E ele contava que se segurou num poste, só tinha um poste de luz na rua inteira, e pensou:

– Meu Deus, as pessoas dizem que eu sou doido e agora eu fiquei doido mesmo. Porque eu estou vendo uma cachorra morta, e a cachorra está toda iluminada…

Emmanuel lhe aparece e diz:

– Não, Chico. Você não ficou louco. Ela está toda iluminada, sim, porque morreu há doze anos, mas o dono nunca se esqueceu dela…

E o Chico contava que, naquele dia, ele desejou que alguém se lembrasse dele após a sua partida, para que, onde ele estivesse,pudesse ter um pouquinho da luz daquela cachorrinha…

Agora que estamos aqui, que a juventude ou a saúde ainda nos beneficiam, nós não imaginamos que, um dia, do outro lado, precisaremos, desesperadamente, que se lembrem de nós com respeito e carinho. E só vão se lembrar de nós se a mensagem que deixarmos no coração do outro for uma mensagem de luz.

Em 1976, no Congresso de Jornalistas e Escritores Espíritas que aconteceu em Brasília, Chico Xavier veio para a noite inaugural. Ele recebeu de Castro Alves,naquela noite, uma poesia magnífica, falando sobre Brasília e sobre o Brasil.

Mas, antes de chegar, ele pediu aos organizadores que o mastro fosse colocado dentro do ginásio de esportes, e, antes da prece, o Hino Nacional fosse tocado e a bandeira do Brasil, hasteada. E fizeram exatamente aquilo que ele havia pedido.

Depois contou que, na hora em que a bandeira do Brasil foi erguida, o ginásio de esportes,super lotado, cantava o Hino Nacional tendo à frente a falange de almas suicidas, de onde vinha Getúlio Vargas. Ele se colocou à frente da bandeira com a mão no peito e chorou amargamente.

Mas estava presente naquela noite, para enaltecer a pátria, e a tal ponto que os Espíritos dizem que dois ex-presidentes desencarnados já pediram para voltar numa próxima vida e serem, quem sabe, de novo, presidentes do Brasil: Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek.

Porque os dois consideraram que, embora tudo o que fizeram, ainda ficou muito por fazer. E, no Mundo Espiritual, eles têm pedido isto: para voltarem e, futuramente, poderem, de novo, comandar o Brasil.

Quando nós vemos a situação difícil que atravessamos, ficamos a imaginar que é capaz de a gente querer reencarnar só pra viver esse dia… As pessoas têm perguntado:

– Quando é que o Terceiro Milênio começa? Quando é que esse Terceiro Milênio vai acontecer?

E eu me lembro de Emmanuel, que dizia, através do Chico:

– Saberemos todos que o Terceiro Milênio chegou quando o homem na Terra amar pela glória de sentir amor, sem nada pedir em troca. E quando os dirigentes das nações forem escolhidos por suas qualidades morais.

Portanto, eu digo pela minha geração: eu vou fazer 60 anos em dezembro. A minha geração está no poder no mundo inteiro e não está conseguindo. Acredito que todos nós queiramos um dia voltar para viver uma época extraordinária como essa, que vai ser o Terceiro Milênio instalado na Terra.

Mas, até lá, não vai adiantar negar as enfermidades tremendas que a sociedade atravessa. Não vai adiantar dizer:

– Sobre tal assunto, eu não converso. Sobre tal coisa, eu não falo, porque tem uma vibração muito negativa…

Me recordo dos amigos espirituais, sempre a nos dizerem que aquilo que ignoramos trabalha contra nós, seja o que for. Portanto, vamos discutir mais sobre emoções, sobre responsabilidade, sobre formar uma família, quando realmente queremos formar uma. Sobre ter filhos, quando realmente queremos ter filhos. Sobre criar lares equilibrados, porque sabemos que não serão só nossos, mas serão barcos, onde muitas pessoas irão chegar e buscar ajuda.

Se não é para transformar nossas vidas para melhor, o que é que nós estamos fazendo aqui?! Será mais uma existência perdida,de que voltaremos um dia, através da morte física, a reencontrar os familiares e amigos que nos antecederam com as mesmas desculpas… Hoje parece uma bobagem, mas esse dia chegará para todos nós! Olhar nos olhos dos nossos protetores espirituais não será fácil, a partir do momento em que haverá uma lista de coisas que nós prometemos e que, de repente, não cumprimos. Se há uma coisa que Jesus nunca disse foi que seria fácil…

Ele nos disse tudo, mas afirmou, categórico:

– No mundo tereis tribulações, mas tende bom ânimo.

E confesso a vocês que não passam 15 dias sem que alguém me conte sobre um suicídio na nossa cidade. Coisas muito sérias. Pessoas de todas as idades.

Tive um colega de uma cidade espírita que gostava de pregar peças. Ele deixava o recado pra família:

– Saí e não volto mais. Vou me matar.

E ficava horas dando volta na cidade de ônibus. Quando todo mundo, desesperado, ia atrás dele, ele aparecia com a melhor cara do mundo. Mas… 20 anos depois, ele se matou de verdade.

Então, ao contrário da história do lobo, em que alguém mentia, dizendo que o lobo estava chegando, alguém corria para socorrer, e era mentira, até que, um dia, o lobo realmente apareceu, gritou-se, mas ninguém mais acreditava, respeitemos sempre, quando alguém dá sinais de que ameaça desistir.

E não pensemos que é porque Fulano é tão católico, Fulano é tão espírita, Fulano é tão budista, que isso não possa vir a acontecer. Vamos, sinceramente, dialogar com os corações que estão à nossa volta. E saber que pessoas de todas as classes sociais atravessam tristeza, angústia e depressão, e, muitas vezes, não diagnosticadas, não tratadas, elas vão até o máximo, até o seu limite, para, enfim, fracassar.

Mas até lá há um imenso caminho, que pode ser solucionado, se nós tivermos ouvidos de ouvir, olhos de ver e sensibilidade para entender.

Camilo Castelo Branco por mais de 50 anos ficou desencarnado, o que é raro para uma alma suicida. Geralmente de três a sete anos depois do seu suicídio a pessoa volta, e é claro que nem os primeiros 100 anos são suficientes para resgatar. Mas Camilo conseguiu.

Ele entrou em tudo que foi estudo, tudo que foi faculdade do Mundo Espiritual, adiando o que ele sabia que era inevitável: a cegueira que ele havia negado como escritor. Ele namorava mulheres casadas, foi preso mais de uma vez, teve uma vida desequilibrada…

Mas foi a cegueira que o tornou humilhado, e aí ele parte para o suicídio. No final do livro ele se despede de Yvonne Pereira, agradecendo a ela a oportunidade de contar a sua história, que ficou um clássico dentro da Doutrina Espírita, mas conta que tinha usado o último adiamento e que precisava voltar; que já sabia que voltaria para estar completamente cego, de novo passando pela prova que antes recusara.

Por isso André Luiz dizia, através do Chico:

– A oportunidade passa, mas a luta adiada volta sempre.

Nós somos o passado em forma de presente. Estamos hoje com dificuldades iguais às que enfrentamos, embora suavizadas pela nossa fé, pela nossa esperança, pela bondade, ainda que pequena, que já trazemos no coração.

Por isso, vamos, quando houver oportunidade, dentro da sociedade, discutir, sim, porque um número cada vez maior de pessoas covardemente tira a própria vida, eencontra mais vida fora da matéria!

Portanto, é preciso colocar a cabeça no travesseiro, imaginando que fizemos tudo o que foi possível pelo nosso semelhante: vamos nos desafiar sempre a estudar mais, a compreender e, compreendendo, acertar.

Almas suicidas geralmente trazidas às casas espíritas são doutrinadas e já começam a entrar no processo de reencarnar. Mas todas são sabedoras das enormes lutas que vão novamente enfrentar. Se ainda estamos num corpo de carne, de saúde relativa, vamos viver com esperança.

Vamos saber que no último instante sempre surgirá uma solução para as nossas dificuldades. Pensemos bem sobre nossa existência: se hoje fôssemos convidados a voltar à verdadeira vida, que histórias teríamos para contar?O quanto a nossa consciência estaria pesada ou livre? Ninguém nos pede que viremos missionários, mas que sejamos minimamente cristãos.

Eu tenho certeza que todo desafio, luta ou sonho que não se realizar será motivo para continuarmos caminhando. Sigamos um pouco mais. Entre dois dias existe uma noite.

Muitas vezes somos retirados do corpo, durante as horas de sono, para estar em contato com os nossos mentores e recebermos, intuitivamente, a solução para as nossas dificuldades.

Que Jesus nos abençoe, Ele, que é o amigo incondicional das nossas almas.

Que possamos, nas nossas horas difíceis, buscar ajuda de profissionais amigos, de companheiros equilibrados, ajuda do trabalho no Bem, que cura, inegavelmente, tantas lutas nossas. E que possamos, um dia, fora da matéria, sermos recebidos do outro lado por alguém que nos dirá:

– Bem-vindo, amigo! O mundo ficou um pouco melhor porque você viveu nele.

Quem nunca leu Memórias de um suicida, não deixe de ler. Parece um livro que impressiona, no entanto, ali estão verdades que não podemos ignorar.

Façamos isso: tenhamos o coração para ouvir aquele que precisa, seja nosso familiar, amigo ou até um desconhecido, que nos peça ajuda. Nunca digamos:

– Agora não posso.
– Agora estou muito ocupado
– Não nasci para ouvir problema dos outros.

Vamos em busca desse socorro espiritual que um dia todos nós precisamos e que nos cabe estender.

Auta de Souza, através de Chico Xavier, tem as nossas palavras, quando diz:

– Embora desiludida, alma cansada e sincera, por muito te doa a vida, não desanimes!…Espera!.

Que nós possamos esperar, servindo, amando e começando outra vez.
Que Deus nos guarde, que Jesus nos abençoe hoje e sempre.